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01-11-2016

E eu disse-lhe que fazia coleção de moleskines e que escrevia compulsivamente desde os meus dezasseis anos pois nutri um medo meio que perturbador de me esquecer das coisas que vou vivendo e porque, tu sabes, é a escrever que encontro o único lugar onde consigo realmente entender quem eu - como se eu soubesse sequer . E já que perguntas, confessei-lhe também que houve uns anos da minha vida em que escrevia coisas que me diziam e que eu não queria esquecer. Alguém a chegar nos entretantos da conversa. Acho que no fundo ela não entendeu nada do que eu disse. Ainda bem que escrevo e que tenho cadernos cheios de palavras bonitas. As mangas da minha camisa ligeiramente amarrotadas pela minha fraca capacidade em exercer perfeitamente o acto de passar roupa a ferro. Reparei tarde. Ainda assim, vais-te rir, mas até as conversas de circunstância com alguém que no fundo não percebe o que significam as minhas palavras porque não me conhece de lado nenhum, é o suficiente para passar o resto do turno a escrever merdas na cabeça, as letras que se beijam umas nas outras e se abraçam até parir palavras, as palavras que se lambuzam até formarem frases e textos intermináveis que se tornam fumo instantes depois, Ana estás a ouvir? esta miúda é surda, e eu a ir acordando devagar para a vida real, essa agora querida mas outrora puta que não me tem corrido como havia imaginado: tantas coisas que eu queria estar a fazer e não estou, tantas coisas que eu queria já ter conquistado e não conquistei, tantas cadeiras onde poderia estar a ser boa profissional na área que amo e não estou, mas calma Ana que a vida dá muitas voltas e obriga-nos a ter calma. Agora estou no lugar certo para ter calma. E a cada dia em que sou feliz em Sagres, em que o trabalho me corre bem, a cada dia em que chego a casa cansada mas feliz, a cada dia em que posso admirar e vergar-me perante a infinidade do mar, mirar atenta e curiosa cada recanto daquele azul até á linha do horizonte; a cada dia que gozo a possibilidade de ter a minha pele salgada porque a praia é a 40 metros da porta da minha casa; a cada dia em que posso finalmente usufruir da grande sorte que tenho em viver com o meu melhor amigo, por sinal também meu querido namorado, e saber que o tenho sempre aqui para me ir amparando, eu entendo que estou no sítio certo para ter calma e ser feliz devagar. Não te preocupes, estou bem. Tenho pensado. Tenho respirado. Tenho metido a vida em dia. Tenho escrito. E tenho tentado perdoar, mas sobre isso falamos depois. Tenho saudades de dançar. Mas de dançar uma coisa como deve ser. Dava um dedo mindinho do pé por uma boa festa de techno. Porra. Ainda assim, tenho-me esforçado como te disse, para regressar àquilo que quero ser. E eu vejo isso em cada hora que tenho para ficar sozinha, geralmente em vésperas de folgas até às cinco da manhã, vejo isso ao recordar, fodasse sabe bem recordar, e vejo isso nas músicas estranhas que eu oiço. Não ter ninguém por perto que tenha o mesmo gosto musical estranho tem-me custado, sei que achas isso curioso e eu também. Porque só se está verdadeiramente longe de casa quando não se tem ninguém ao nosso lado que oiça a mesma música que nós e eu aqui não tenho ninguém que saiba o que é trip hop ou conheça Massive Attack, ou se arrepie com Sigur Rós, Portishead, James Blake, Linda Martini... Um único recanto onde eu diga que chorei num concerto de Rhye e não haja uma alma que conheça. Ou já me bastava alguém que não dissesse que adora hip hop embora não conheça  Mos Def, Chance the Rapper, Tyler the Creator ou Kendrick Lamar. Eu gosto tanto de ti porque te arrepias nas mesmas partes das músicas que eu.
 Há dias em que a vida real é demasiado cansativa para me encontrar, mas lá descubro um jeito de sentir a minha pele novamente, as minhas mãos. Estou no sítio certo, por enquanto. Vá lá, já sabes que não é por muito tempo. Ainda há muito por escrever.

15-09-2016

A verdade: eu não estava preparada.
Porque não há preparação possível para o lugar escuro e fétido onde vamos parar quando saímos da faculdade.
O lugar onde o telemóvel está sempre com som e onde se verifica o e-mail de hora a hora.
O lugar onde não há notícias nem respostas mas há demasiada gente.
Não estava preparada.
Mais de 300 currículos depois.
Dinheiro gasto sem o ter em transportes para entregar três-folhas-do-que-tenho-feito-da-vida em mãos.
Vídeos de Apresentação.
Este lugar é uma desilusão porque eu pensava que era especial
e podia fazer coisas para mudar o mundo mas não posso.
Nunca fiz nada que outras pessoas não tivessem já feito,
ainda assim acredito que possa um dia fazer coisas maravilhosas.
Somos enganados toda a vida com a ideia de que vai correr tudo bem mas não corre
e que quando acabarmos o curso vamos arranjar o emprego dos nossos sonhos.
Os tempos estão difíceis, dizem, mas no fundo não acreditava,
porque as pessoas com a minha idade acreditam sempre que vão ter um lugar ao sol.
Dizem que somos especiais e iremos explorar sítios incríveis mas voar é um privilégio só de alguns.
A vida de adulto é a pior experiência que tive até hoje mas não posso fugir disto.
Estou muito cansada e com vinte e quatro anos não se pode estar cansado.
Mas estou.
E revoltada.
Eu quero honestamente que enfiem o estágio curricular no cu,
porque o estágio curricular foi criado para meninos que podem ser sustentados pelos papás.
E eu falo assim por pura inveja.
Eu não invejo mais nada nem ninguém que não os meninos que podem ser sustentados pelos papás.
E por papás diga-se pomposas cunhas em empresas de sonho.
Têm sorte pá, aproveitem.
Façam coisas extraordinárias no alto da vossa estabilidade e conforto.
Eu não posso receber 500 euros de ordenado malta,
desculpem,
mas eu vim a este mundo para viver e não para sobreviver.
Eu tenho coisas para pagar e não quero viver só para pagar as coisas que tenho para pagar.
Eu recuso-me a viver desta maneira.
Lisboa eu amo-te tanto mas quero tanto ir embora.
És a cidade mais linda que eu já vi mas eu também não vi muitas mais.
As pessoas que sobrevivem não podem conhecer o mundo e isso é uma merda.
Não me digas que às vezes é preciso fazermos coisas que não gostamos porque a vida é dura,
não me digas isso, agora a sério:
eu sei disso melhor que tu porque já tive muitos trabalhos que não gostava.
Eu falo desta maneira fria mas não é por querer que a vida seja perfeita ou fácil,
nem por achar que só devo fazer coisas que gosto.
Eu só acho é que há uma altura em que já não é justo.
Porque é que eu tenho de servir às mesas ou vender sapatos se não foi para isso que estudei?
Porque é que eu tenho de servir às mesas ou vender sapatos se não é isso que eu quero?
Porque é que eu tenho de servir às mesas ou vender sapatos se não é isso que me faz feliz?
Para sobreviver Ana, para sobreviver.
Mas eu não quero mais sobreviver eu quero ter dinheiro para pagar a renda a horas,
eu quero ter dinheiro para poder ir dançar de vez em quando e ir ao Pingo Doce sem ter de fazer contas.
Servir às meses ou vender sapatos é um sonho como qualquer outro mas não é o meu e é esse o problema.
Eu tive de aprender a ser eficiente em trabalhos onde não queria estar mas precisava.
Ah mas ao menos tens arranjado trabalhinhos e feito uns trocos,
Ah mas não te queixes que tu ao menos não tiveste de voltar para casa dos pais,
Mas eu não tive de voltar para casa dos pais porque faço sacrifícios e tenho empregos que não gosto.
E porque tenho ido à luta por saber inventar as minhas próprias armas.
Eu estou farta de ter trabalhos onde não puxo pela cabeça.
Eu estou farta de ter trabalhos que não me dão tesão intelectual.
Eu valho mais que isso.
Eu tenho ideias.
Eu sei escrever bem e rápido.
Eu até tenho algum jeito para fotografar pessoas.
Eu não investi dinheiro e esforço para isto.
Eu fui parida para ser feliz porra!
Eu fui parida para ser feliz!
Eu fui parida para fazer o que me faz vir.
Eu não quero mais ser explorada,
trabalhar 6 meses sem um contrato ou um desconto,
eu não quero receber ordenado só quando dá para receber.
Porque na vida real as contas têm de ser pagas antes de dia 8 de cada mês.
A empresa tem dificuldades financeiras
mas eu também as tenho.
Lisboa eu amo-te tanto e há seis anos que somos felizes juntas mas és uma puta cara,
és uma puta demasiada cara para o meu bolso,
pensar que o dinheiro de um quarto aqui equivale a uma casa noutra cidade do país deixa-me envergonhada,
envergonhada por insistir em ficar cá.
Mas a culpa não é minha mas sim do meu país brutalmente centralizado.
Não me digas que se fazem coisas maravilhosas fora de Lisboa que eu sei que se fazem,
mas não há espaço para todos.
Sinto-me mais confiante que nunca mas isso não dá jeito nenhum,
porque seria mais fácil acreditar que estava destinada a um trabalho que não gostasse,
que a minha vida seria só isso,
talvez se me tivessem convencido que era igual a toda a gente eu fosse uma miúda que pedisse menos,
talvez até fosse mais feliz porque os mais burros são sempre os mais felizes.
Eu peço mais do que isto mas porque sei que consigo.
Talvez fosse mais fácil encostar-me, contentar-me e ter uma vida como toda a gente
de cabeça baixa a fazer o que há para fazer.
A viver a vida que quero ter apenas na minha cabeça.
Mas sou uma miúda sonhadora e serei sempre, podes crer,
os sonhos servem para saírem da nossa cabeça e viverem nas nossas mãos.
Vamos brincar à gratidão de ter um trabalhinho sem condições,
Com horário repartidos a fazer coisas que detestamos para sermos felizes só aos fins de semana.
Gratidão uma merda,
eu tenho valor e quero ter condições e ganhar bem.
A vida passa veloz e não quero ter filhos aos quarenta anos,
eu quero ter uma casa minha e poder tirar a carta de condução.
Porque é engraçado ver miúdos de 18 anos a conduzir um carro e eu não,
eu não quero ter um trabalho com uma folga semanal
porque adivinhem:
eu já os tive
e eu quero ter uma vida além do trabalho
e ter 20 euros se me apetecer ir ao teatro.
Eu quero ter dinheiro para poder comprar um livro
sem ter de abdicar da conta de internet.
Ninguém merece ter uma folga semanal à segunda feira
para chegar aos 80 anos e pensar que não se aproveitou a vida enquanto se era jovem.
Eu não vou ser comida lentamente por um trabalho mal pago que não me realiza.
E que se foda este texto que eu agora tenho de ir enviar mais uns currículos que ninguém vai ler,
porque os cargos bons na verdade não abrem concursos públicos,
as cadeiras já estão quentes para os filhotes dos amigos.
Cada um vai safando-se como pode e eu se tiver uma cunha em algum lado
Vou aproveitá-la muito bem também.
Toda a gente me vomita dicas para conseguir o que quero
Mas a maioria dessas pessoas nunca as utilizou,
porque antigamente ias para um trabalho aos vinte anos e ficavas lá até à reforma.
E hoje pedem que fiques feliz e satisfeito com um contrato de 6 meses sem condições.
A vida dá muitas voltas e eu espero um dia ler este texto e rir-me,
sentada num jardim a ver os meus filhos crescer sem preocupações.
Não estava preparada.
Porque não se pode estar preparado para não se ser reconhecido nem ter uma oportunidade
depois de tanto sacrifício e suor.
Alguém me dê um bilhete só de ida que eu quero ir trabalhar para fora,
mesmo que as saudades do meu sobrinho me laminem a carne em fatias,
de qualquer maneira nem tenho conseguido visitá-lo todas as semanas como gostaria
tal não é a madrinha que sou.
Amo-o muito e penso nele todos os dias,
e quero ter dinheiro para o levar ao Jardim Zoológico daqui a uns anos.
Mudei muito desde o dia em que fiz o meu último exame na faculdade,
sinto-o.
Estou muito cansada do meu último ano porque não tenho tido descanso
e quando vislumbro ao longe uma hipótese que as coisas possam correr bem
não correm.
Não sou uma miúda com azar porque eu tenho uma vida maravilhosa
cheia de amor e de amigos e sorrisos apesar de tudo,
mas eu só queria ter um emprego para o qual estudei que me desse condições humanas
e não me considerasse um número inútil.
Tenho-me cruzado com muitas pessoas pelo caminho
e realmente há talentos incríveis que nunca irão correr o mundo.
É injusto e profundamente triste
e eu não me conformo.

17-08-2016

Meu amor.

Acho que nunca te chamei de meu amor.
Nas grandes amizades não há tempo para palavras gastas nem para inhos e mariquices. É-se, simplesmente, o que se é.

Respirei o dia inteiro inquieta com ânsias de te escrever pois só hoje concebi que já não somos as meninas que viajavam por Itália cheias de sonhos. Estamos crescidas. Estamos Mulheres. E hoje vejo-te mais Mulher do que nunca porque ser Mulher é ser valente e corajosa.

Admiro todas as pessoas que têm de viver sem uma Mãe.

Porque viver sem uma Mãe deve ser acordar todos os dias em carne viva, inflamada, a arder. Deve doer para caralho. Deve queimar a alma toda e o corpo também e deve chamuscar os sonhos e as esperanças e a vontade de viver. Deve queimar tudo goela abaixo até se ouvir o borbulhar fervido do nosso próprio grito.

É-me insuportável escrever-te sobre isto porque ontem escrevia aqui sobre como Florença é bela a teu lado. E hoje escrevo-te sobre o pior dia da tua vida. 

Não se pode ser sempre feliz. 

Desconfio que somos totalmente felizes apenas em criança e que os níveis vão descendo com os cabelos brancos. Viver é, digam o que disserem, ir perdendo felicidade em pequenas doses todos os dias. Começa com a saudade fininha dos tempos de escola, dos baloiços e das férias grandes. Morre o cão companheiro de infância triturado por um carro qualquer. Perdemos os nossos avós. As famílias zangam-se. Os lugares desaparecem. E eis que no climax da dor humana se encontram todos aqueles que não têm Mãe.

É por isso que hoje te comecei a admirar.

Raramente me fogem as palavras quando me apetece escrever aqui. Neste lugar que é metade teu. Neste banco tão nosso onde se provam por escrito as aventuras e trapalhadas de duas miúdas que vão vivendo o melhor que sabem. Quem diria que chegaria tão cedo o dia em que deixas de ser pirralha.

Quando se vive sem uma Mãe não se pode ser mais criança. 

Sinto muito Tatiana. Sinto muito. A vida às vezes sabe mal.


Sê crescida e sê Grande mas volta sempre aqui quando quiseres voltar a ser criança.

21-07-2015

Eis que um nosso conhecido demasiado jovem para deixar as tripas espalhadas numa estrada qualquer vai desta para melhor e nós, demasiado estúpidos e apressados, prometemos de mão direita estendida no peito deixarmos o nosso emprego que odiamos e fazermos as pazes com quem algum dia nos feriu. Amanhã dou um murro na cara do meu chefe. Com sorte ainda roubo algum material de escritório. Vou viajar. Vender a minha casa e viver na praia. Vou fazer amor mais vezes com a minha mulher e gritar menos quando os miúdos se encherem de lama.
E choramos ranhosos e inchados pela morte e por todas as tripas espalhadas de gente a quem nunca dissemos gosto de ti pá, és importante na minha vida. Limpamos o nariz à manga da camisa e vamos embora, que amanhã é dia de trabalho.

Somos uma merda tão grande.

24-10-2014

Mais um amor de plástico com 0% de açúcar, comprado na quinta prateleira a contar de baixo, terceiro corredor à esquerda. Um rótulo já gasto cuja tinta das letras se solta mais um pedaço, todos os dias, 10% de indiferença, 40% de sexo, 5% de balelas. Uma discussão de vez em quando. Mais um amor empacotado, amofinado, selado por duas entidades perdidas nas vielas de uma cidade deserta. Um amor cozinhado em lume brando e esquecido em cima da chama até transbordar para fora da taça com bolhas aflitivas. Um amor de microondas. Aquecido a 140 graus durante os primeiros meses. Mais um amor que nem é amor porque as pessoas gostam-se, aturam-se, habituam-se. Vão convivendo. Vão-se fodendo. Já ninguém quer participar num amor igualitário entre os intervenientes. Tu podes ser, mas eu tenho de ser mais que tu. Tu podes voar, mas eu tenho que voar mais alto que tu. Tu podes ser bonito, mas eu tenho de ser mais bonito que tu para o caso de andares aí com ideias de. Eu posso sofrer mas tu tens de sofrer mais do que eu. Não te reveles superior a mim em nenhum momento, que isso não pode ser. E as pessoas vão vivendo nesta nojeira imunda, que fede e me dá vómitos. Pontualmente vão surgindo casos onde efectivamente este amor plastificado se manifesta duradouro: as pessoas casam-se, prometem merdas que nunca vão cumprir, gastam dinheiro no copo de água e na lua-de-mel que é a única viagem em conjunto que fazem na vida. Têm filhos. Deixam de conversar. Ficam cansadas delas próprias e do outro. E separam-se, enfim. Mas eu acredito no alto dos meus ténis esburacados que isso acontece porque nós não suportamos que haja alguém melhor que nós. Vivemos na esperança que o Outro seja inferior a nós, porque se for inferior a nós é ele quem sofre e não nós, não nós, nós nunca. Deixa-me lá saber mais do que tu. Deixa-me lá ter mais sucesso. Deixa-me lá receber um salário melhor que o teu. Deixa-me lá trair-te para não ser eu o desgraçado de testa pesada. Vivemos um jogo de Quem é Melhor que Quem?. As pessoas já nem se fodem como deve ser, porque não sabem. Vem no rótulo do amor plastificado: contra indicações: possível desconhecimento súbito do acto de foder.
Eu sei que ninguém pensa nestas merdas porque temos o curso para acabar, porque temos de trabalhar das nove às seis. Porque há os filhos e as obrigações e a cidade que não pára. Porque ninguém quer ficar sozinho, a viver num T1 com 3 gatos e sem lençóis desarrumados todas as noites. As pessoas têm medo de ficar sozinhas e é por isso que se rebaixam, que se calam, que em muitos casos sofrem agressões físicas e psicológicas. Tudo por causa deste amor de microondas, falsificado, adulterado, sem paixão, arrefecido e com bolor. Este amor rançoso, infectado e fedorento.
Eu prefiro morrer sozinha, viver focada na carreira e dividir casa com dois cães do que participar neste sentimento fétido e fora de validade. Prefiro morrer sozinha se for para viver desta maneira nauseabunda. Quero alguém que partilhe o pódio comigo, que admita que podemos viver em equilíbrio, tu fazes isto tão bem mas aquilo já não fazes e eu vou ajudar-te. Sê e voa, não me importo, eu sou e voo também, e vamos voando sem invejas e sem merdas. E podes chorar e gritar a meio da noite, que eu abraço-te. E olha, nem precisamos de casar, vamos só ficar juntos e encher esta casa de putos ranhosos que oiçam boa música, que leiam, que sejam bondosos e educados. E vamos ter um cão ou dois para nos esburacar o jardim, que eu não me importo. E quando eu tiver febre sei que estarás aí, para cuidar de mim. E sei que nunca me vais deixar sozinho no escuro e que me vais aquecer quando tremer de frio. Sei que o nosso amor não foi comprado nem fabricado do outro lado do mundo. Foi moldado a nós os dois, com as nossas mãos. E quando te sentires perdida insegura e triste eu vou estar aqui para te mimar. Quando não souberes cozinhar esse prato eu ensino-te. Quando não souberes por onde ir eu guio-te. Não quero nem preciso ser superior a ti, quero dizer-te todos os dias que te amo, que és uma pessoa especial e única no mundo. E que preciso de ti, tanto, para ser feliz. Que preciso de ti para ter paz. Que preciso de ti quando estou zangado porque me dás calma.

As pessoas compram amores de microondas mas eu não, eu não. Recuso-me. E sou grata por ter do meu lado um rapaz que também não compra, e que eu amo, muito, sem rótulos e bolor. 
Um amor 100% amor.

08-10-2014

Quando ele se afirma como mais uma desgraça sem rumo, uma vítima de si próprio que se vai arrastando no vómito de sempre para que a turba engula que está tudo bem e se cale, calem-se por favor calem-se. O actor que interpreta o vilão na novela da noite, asqueroso desprezível imundo infame. Só. Terrivelmente só sem entender porquê. A sombra perdida de um beco qualquer, pináculo de gulas e ciúmes; possessivo doente e louco que lambuza agora os seios de uma mulher como se a sua vida dependesse disso. Uma dor fina dos pés até ao âmago da sua existência inútil, beijaram-se pela primeira vez e logo ele soube que aquela seria a última mulher que beijaria na sua vida.
Tu serás a última mulher que beijarei na minha vida.
Ligeiramente mais baixa e sardas a rebentarem-lhe na cara, não te importas que eu seja isto? Que eu seja este bocado de carne em desassossego perdido em pesares que nem eu próprio sei explicar? Não te importas que seja um constante sufoco, acordando em aflição e em aflição me deitando noite após noite após noite após noite após noite após noite? Não te importas que ande em constante sobressalto alvoroço sendo falso para todos e para mim mesmo, mentiroso cobarde ansioso abalado por mim próprio? Inquieto? E ela finta-lhe um olhar distante e não lhe responde enquanto se deleita no corpo dele devagar, porque as coisas devem ser feitas devagar e a vida deve ser levada devagar mas ninguém consegue nem concebe essa ideia de mãos acorrentadas e emoções controladas pois que sabe bem dar um grito de vez em quando e ter sexo a três, ah!, só para nos esquecermos que somos uma merda e nunca vamos efectivamente ser ninguém neste pedaço redondo de terra e guerras vãs. Quando ele afirma ser mais uma vítima que tresanda a vida citadina louca insana enquanto a admira, entorpecido e excitado, a lamber o órgão mais precioso que ele possui e agarrando-lhe os cabelos loiros com fulgor, a respiração ofegante, a saliva dela a escorrer-lhe carne abaixo afundada e alagada na tesão que agora ele é, até as sardas sumirem atrás de um perímetro abdominal pouco cuidado. Ninguém sabe o que vai para além de um tiro na cabeça ou de uma corda ao pescoço, e é então que ele,  aquele ser indigno desajeitado e sem fé, pega no corpo da mulher sem dó e a vira de costas para si sob uma cama velha cansada e farta de assistir a sexo ocasional com outras putas, sepultando-se dentro dela em movimentos de vai e vem, as mãos totalmente esticadas passeando pelo corpo dela, as costas, as nádegas jubilosas, os cabelos, os seios erectos, a alma, tudo devagar para lhe entrar na pele e nas entranhas, até não sobrar qualquer vestígio de carne possível de ser lambuzado.
Talvez a gente exista para vivermos sozinhos, caminhando imundos e amargos num caminho que é só nosso e de mais ninguém, para mais ninguém, sem prender ninguém, sem arrastar ninguém para um penar que só nós entendemos, quando entendemos, e é tão difícil entender esta merda, isto é tão difícil.
Ele vem-se dentro das vísceras daquela mulher num gemido demorado amargo sentido, as sobrancelhas fundidas às bochechas quase que a esconder aquele olhar agora longe enquanto lhe aperta as nádegas outrora carentes e sai, finalmente, de dentro dela. Apunhalado pela vergonha daquilo que ele se tornou, olha para aquele corpo ainda esticado de barriga para baixo uma última vez, abre a segunda gaveta a contar de baixo, eu no fundo sabia que serias a última mulher que iria beijar. Coloca na sua mão a única fuga possível, a passagem para um sítio novo e longínquo onde não há dor quando se acorda e onde não se chora silenciosamente em comboios. Aponta o objecto de salvação no centro da testa e puxa o gatilho. O sangue esguicha afincadamente e sem piedade pelo quarto. Ela grita e vai embora.

14-04-2014

Manifestam-se curiosas as potencialidades escondidas por detrás da primeira porta que vês ao entrares em casa após arruinares meio tecido pulmonar nas cem escadas, número certo, que te trazem a um quarto andar já cansado e com histórias de outros por contar, aquela porta que foi só nossa durante as tantas horas da nossa existência estulta imbecil inepta que nada traz senão estes nacos de tempo onde nos é permitido ser, verdadeiramente, felizes. A porta que testemunhou de forma serena o fôlego pouco discreto e comedido que é só nosso e que findou por breves dias enquanto eu aguardo desesperadamente o repouso futuro dos teus lábios no meu pescoço e suspiro de saudades tuas afagando o meu corpo cansado por ti contra a almofada. A primeira porta que vês neste quarto andar desgastado, a entrada que observa atentamente a forma como desejo o teu colo calmo sem hesitar na decisão de te deixar esventrares a minha carne da forma que quiseres e tornares-me tua por inteiro. Ah!, fui outrora um punhado de carne gélida e de falsas vontades momentâneas e meramente carnais de alguém que não tu, incapaz de valorizar o que faço o que digo o que sou, e eis que surges de forma incontestável na minha vida e me lavas o falso alívio que sentia ao queimar a minha auto estima de pedaços insignificantes em prol de outrem, curando-me assim o bocado em carne viva que eu não conseguia sarar há demasiado tempo. Por favor não dês um desfecho trágico à nossa história ainda no início, que eu estremeço ao ouvir o teu nome e sinto a ponta dos teus dedos a dançar no meu peito todos os segundos do meu dia, alguém me disse que era amor mas isso eu não prometo de mindinho porque preciso confessar àquela porta, agora tua, que juntos somos rasgos de felicidade doentia e inegável perante o olhar atento dos outros. As tantas horas tangentes dos teus beijos no meu ombro, das tuas mãos à volta do pedaço agora mais optimista que eu sou. Quero reviver vezes sem conta e enquanto me for possível o teu rosto na presença do meu gemido; levar as mãos à cabeça num desespero maravilhoso que anseio sentir para me tornar mulher-não-mulher acriançada que solta gargalhadas com o cabeça no teu peito. Preciso acalmar as correrias a que me sujeito no teu regaço enquanto me embalas de olhos fechados; quero partilhar contigo algo imutável fixo certo pois que tu foste o único que me leu as perguntas caladas que se atravessaram nos meus olhos e me romperam a pele num arrepio. Não arrases nem sufoques a forma como as nossas mãos se encaixam por favor, meu amor, que eu não aguentaria o confronto com o vazio da tua ausência nos meus dias após me habituar a este sentimento que cresce de forma saudável incontrolável extenuante para os nossos corpos cansados suados sedentos e sôfregos um do outro, impacientes pela próxima vez que formos peças de um puzzle só agora completo que se encaixam e se criam e se amam em movimentos de vai e vem.
Aproveitemos então esta força estranha que nos une de olhar preso um no outro, o cerrar das minhas mãos na tua carne e a presença assídua da nossa gargalhada em todos os momentos em que me encontro contigo excepto quando tenho de te deixar por uns dias e contra nossa vontade. Um abraço apertado e a despedida temporária dos teus lábios nos meus, viro costas de ombros descaídos e peito estalado da tua ausência que embora recente já me queima por dentro enquanto te reparo embevecido a olhar para mim e tenho a certeza que eu, Ana Cristina, mas não me chames Cristina, estou inegavelmente e completamente apaixonada por ti.

12.03.2014

Eu nasci. Eu nasci e não foi naquele instante em que fui parida e me cuspiram para ter lugar neste mundo de loucos rasgando as entranhas da minha mãe. Eu nasci. Nasci? Sim, naquele momento solene majestoso e ultimamente raro em que estive verdadeiramente em mim. Nasci. As pontas dos meus dedos quentes, os olhos sem pesar, os cabelos tipicamente reduzidos a um aglomerado confuso preso por um elástico cansado. Eu nasci. Naquele momento em que me ouvi. Nasci quando fiquei quieta sossegada sozinha e um pouco aborrecida até. Nasci porque não senti nada. Não senti nada. Não senti deslumbramento. Não senti êxtase. Não senti azáfama ao falar. Não corri ao olhar para o relógio. Não senti música barulhenta a vibrar-me nos pés. Não senti prazer. Nada. Não senti nada. Não senti nada e nasci. Nasci porque parei. Nasci porque estou sóbria calma tranquila sossegada plácida só. Nasci porque estou só. Nasci e afogo-me assim neste limbo maravilhoso entre a minha existência e o meu sossego eterno, balançando os dedos na minha pele agora serena. Nasci. Não fui parida. Não fui gerada. Eu nasci! Eu nasci porra! Eu nasci e agradeço aos astros tudo o que trouxeram até mim. Todas as vezes em que fui mero pedaço rasgado de papel amarrotado. Todas as vezes em que uma mão me agarrou a testa e a outra me degolou sem piedade. Todas as feridas rasgadas abertas e infectadas na minha carne. Todas as doenças raras contagiosas impiedosas e cansativas que sofri. Todas as quedas ao andar de bicicleta. Todas as torturas e febres. Todos os embustes desesperos e tormentos. Todas as camadas de pele que me queimaram. Ainda bem que me queimaram. Ainda bem que me doeu. Todas as vezes em que fiquei imóvel de olhos cravados na parede sem saber para onde ir. Todas as dores e gritos roucos. Todas as chamas inflamadas à volta do meu pescoço. Todas as horas em que jurei que havia alguém melhor que eu; alguém mais bonito mais engraçado mais inteligente. Mais. Alguém mais que eu. 
Mas eu nasci. Eu nasci! Eu nasci porque não há ninguém mais que eu. Não há ninguém mais bonito que eu. Não há ninguém mais engraçado que eu. Não há ninguém mais inteligente que eu. Não há ninguém mais amado que eu. Não há ninguém que fale como eu. Não há ninguém que se ria como eu. Não há ninguém que dance como eu. Não há ninguém que seja tão trapalhão como eu. Não há ninguém que tenha defeitos como eu. Não há. Não há ninguém mais que eu, e é por isso que eu nasci. É por isso que fui jorrada aqui. Para não existir neste pedaço de terra batida nenhum ser semelhante a mim. Nem melhor. Nem mais. Não há ninguém mais que eu. Eu nasci. Eu nasci. Eu nasci. Não há ninguém mais que eu. Não há ninguém mais que tu. Não há ninguém mais que a vizinha do primeiro andar. Não há ninguém mais que um velho sentado num banco. Não há ninguém mais que ninguém, não há, não há. Não há ninguém mais que nós, porque nós nascemos. Estamos cá. Nós estamos cá e não há porra nenhuma mais que nós! Não há. 

Eu nasci.
Eu nasci porque não há ninguém mais que eu.

19.02.2014

Suspeito que nada do que vomite neste momento possa ter algum sentido para ti, olha que não vai ter, não vai, vês, estou a usar virgulas! estou, a, usar, virgulas, estou, estou, ah!, não quero perder os braços e as pernas e as forças em nome das regras, que há coisas que não se amarram na pele dos outros como se colam se fixam se cravam se enterram se enterram se enterram na minha. A máquina não está cheia ainda, deixa estar isso aí, entro às cinco, ah, sim, as virgulas. Um ponto final. Não gosto de parágrafos. Ninguém sabe ninguém sabe ninguém sabe, no outro dia estava a ter uma aula, um amigo meu ao lado, tu escreves mesmo pra caralho, o meu pai não gosta que escreva palavrões no site, oh achas mesmo?, desculpa pai sei que me lês, Acho. A universidade corta-te as pernas. A universidade corta-te as pernas. A universidade corta-te as pernas. A universidade corta-te as pernas. Fiquei a pensar naquilo o suficiente para o escrever aqui, que esta coisa estranha e por vezes feia de existir é só um conjunto de frases feitas e clichês e talvez este texto até tenha feito algum sentido para ti.

13.02.2014

Eventualmente poderíamos não ter ficado meramente confinados aos sorrisos envergonhados que partilhamos e que me atravessaram como flechas estilhaçando o meu peito de forma inconsolável, mas o conforto de um colo seguro é quem mais ordena e eu afundo a cabeça na almofada e lembro-me da bolha de algodão doce que criei contigo apesar de não te saber ler nem conhecer os teus tormentos sonhos ou possíveis anseios que te façam vibrar no inchaço desse orgulho ferido, restando-me desta forma a resignação perante o teu acto deliberado de forma clara e o retorno ao meu leito ameno que grita por um abraço hipotético dos teus braços contra o meu pescoço. 

11.02.2014

Exerço novamente aquele ritual diário em direção ao setecentos e trinta e cinco de fones nos ouvidos e sem dar conta da desordem capilar que decorre de forma assustadora na minha cabeça devido a um vento chato e cansativo que me vira o guarda chuva enquanto penso para os meus botões: felizmente felizmente felizmente sou quase vinte e dois anos de erros cabeçadas enganos e quedas, actos cuidadosamente exercidos pela minha pessoa de forma estúpida e incorrecta a todos os níveis porque afinal não possuo qualquer tipo de santidade nas minhas entranhas, falho, caio, respondo mal, sou impulsiva e assumo actos sem pensar devido a esta angústia constante de querer viver a vida como deve ser, por isso confesso às minhas mãos frias e pontilhadas de pingos de chuva que irei sempre ser fiel e politicamente correcta a mim própria, ah!, que ninguém venha opinar sobre o que é suposto ser bem feito bem vivido bem aproveitado pois que toda a gente sabe viver de forma perfeita e maravilhosa atrás de umas frases feitas escarrapachadas no Facebook. Eu não me vou dar a isso, não vou não vou não vou não quero, não me venham com merdas que quem vem aqui ler-me, mesmo não me conhecendo intimamente, conhece um bocado deste caminho em desalinho que eu sou e sabe que nunca, na puta da minha vida, irei tomar alguma atitude para prejudicar alguém propositadamente. Ah, lordes, que mania esta do mundo conspirar contra vós, se eu beijo e danço e me perco é porque me apetece porque quero porque não vejo que os meus cinco minutos de pseudo loucura juvenil possam (inter)ferir com uma qualquer alma desgraçada e sem consolo que ande por aí ao abandono e quem julgar o contrário destas palavras que agora jorro não me conhece de todo. 
Sento-me de guarda chuva já fechado num qualquer banco de tecido feio e sem cor que os meus olhos vislumbrem ao entrar no autocarro, ninguém imagina a quantidade de cus e cabeças pensativas como a minha que se sentaram neste lugar. Os meus olhos imóveis cravados na chuva vomitada pelas nuvens a dançar com o vento de forma violenta mas bonita - eu acho - enquanto deduzo que nestes poucos anos de existência que fruo desde que fui parida nesta terra de loucos e putas, tenho entendido que somos todos uma alma defecada pelo universo ou um precalço sexual de outrem e mesmo assim insistimos nesta balela já gasta de que somos especiais e de que não passamos de uma existência irónica miserável oca que rasteja de canto em canto. 
Chego ao destino, saio do autocarro. Sobrevivi uma vez mais a esta viagem de quarenta minutos até casa. Que a minha vida não seja em vão e a tua também não, caríssimo. É só isso que eu quero.

30.01.2014

Ana: chegou a hora da aventura acabar. Não chores. Tens Lisboa à tua espera e Lisboa é linda. Vão voltar os passeios bonitos pela baixa. Vais voltar ao Lux e ao Bairro Alto. Podes ir a Belém comer um pastel, eu deixo. E naqueles fins de semana em que não fores á terrinha podes ir a um miradouro de fones nos ouvidos. Mas aqui já não é o teu sítio. Este lugar agora vai ser de outra pessoa. Essa cama. Essa secretária. Esse lugar na mesa. Duvido que o próximo que venha coloque fotografias na parede também. Talvez deixe ficar o mapa do mundo que encontre ao chegar. Ana, chegou a hora de te despedires. Já não precisas de cumprimentar o senhor da mercearia. Já não precisas pedir a conta em Italiano. Já não precisas de acenar ao rapaz que está sempre na esquina. Acabou. Faz as tuas malas. Apanha o teu avião. Volta para os teus. Finge estar tudo bem. Este bocado de felicidade vai ficar em ti e nas pessoas em que tocaste. Vieste mais vazia do que voltas. Só por isso já valeu a pena. E viajaste, Ana. Só agora é que entendes como gostaste tanto disto. Merda. Passou tão rápido, Ana. As coisas boas têm sempre um fim. Eu acho que são tão boas porque têm um fim. Se durassem para sempre, deixavam de ser boas. Chegou a hora de te despedires, estou a falar a sério. São oito da noite e tu não fizeste as malas. Acabou. Tens coisas a fazer. Trabalho pela frente. Livros para ler. Amigos para abraçar. Está na hora de voltar. Se quiseres chorar chora tudo agora. Lá não. Ana, oh Ana. A aventura acabou Ana. Estou tão triste por irmos embora Ana. Dá-me o teu braço. E ajudo-te com as malas. Oh Ana... este lugar já não é teu. Que pena tenho eu disso.

22.01.2014

Vamos matar-nos. Agora. Vamos matar-nos. Começamos por beber muito, demasiado, não o suficiente porém. Vamos ingerir tudo rapidamente. Pele de galinha e cara feia enquanto engolimos o veneno com fervor. O trago amargo de um álcool barato a escorrer por nós abaixo. Vamos inspirar uns riscos do que houver. Ou meter uma agulha na veia do braço esquerdo. Ter um orgasmo sem o ter com a droga a fervilhar dentro de nós. Vamos matar-nos. Agora. Fazer sexo com desconhecidos numa esquina qualquer. Gemer no ouvido de alguém sem o amar. Se o amarmos é porque já estamos mortos podres e ao abandono numa caixa de Perdidos e Achados. Vamos bater em alguém. É isso! Um olho negro. Uma costela partida. Uma mão inchada. Tossir sangue. A grande dor de sentir alguma coisa, ah! Vamos matar-nos. Agora. E vamos matar um homem também. Assassina-lo na banheira para morrer como veio ao mundo. Deixa-lo degolado e afundado no seu próprio sangue. Ou então sufocado numa almofada. Eu em cima dele. Os seus braços agitados contra a minha cara até ao último suspiro. Tu sentado quieto passivo numa cadeira a meu lado enquanto fumas um cigarro e sorris. As unhas do defunto ainda quente marcadas no meu rosto. Vamos matar-nos. Vamos matar-nos. Agora!  Enfiar os nossos dedos goela abaixo e entupir as entranhas com comprimidos. Vamos matar-nos. Um tiro certeiro no peito. Uma facada profunda torcida sem piedade no estômago. Enterrar-nos vivos até sucumbirmos. A nossa vida ceifada sem misericórdia. Vamos matar-nos. Agora. Temo que nenhum outro bocado de carne que não tu compreenda isto. Vamos matar-nos. Agarra-me o pescoço. Vamos beijar-nos. Os lábios. Os ombros. As mãos. As mãos! Vamos matar-nos. Vamos beijar-nos. Vamos matar-nos! Agora. E depois vamos abandonar-nos porque é assim que as coisas são. Já ninguém se quer para sempre. Nós também não somos para sempre, de qualquer forma.... Vamos matar-nos. Agora. Vamos matar-nos e voltar para as nossas vidas. Tu para o teu emprego das nove às quatro. Eu para os meus estudos para os meus escritos para as minhas alucinações. Nós já estamos mortos de qualquer maneira. Existirão por aí cabrões que nos julgam loucos. Não é que têm razão? Que bom ser louco ai que bom, vamos matar-nos. Vamos matar-nos e regressar ao sítio triste velho oco gasto onde somos obrigados a estar vivos. Afinal de contas temos de ser normais. Uma ovelha atrás da multidão. Um acenar de cabeça. Sim senhor. Ser violado contra a parede de uma casa abandonada sem piar. Consentir tudo. Que filha da putice. Vamos matar-nos puto!

16.01.2014

Evoco agora com carinho e pesar aquele instante em que te conheci e te declarei como entidade capaz de alterar a minha vida durante os poucos meses que se seguiriam, pois que foi agradável a sensação autêntica porém momentânea de que eras alguém especial que não me fazia sentir estranha e me incentivava a acreditar que talvez houvesse um Ser idêntico a mim, alguém que se assemelhasse ao meu reflexo íntimo privado desconhecido para muita gente e até para ti, até para ti; alguém que pensasse da mesma forma que eu, alguém que dançasse como eu, alguém que gostasse de sentir as coisas como eu, alguém que ouvisse a mesma música que eu, alguém que gostasse do mesmo género de filmes que eu, alguém que não se importasse de ver o sol nascer só porque sim, só porque sabe bem, só porque é bonito; alguém com quem eu pudesse estar calada sem me sentir incomodada, alguém que soubesse conversar. As pessoas já não sabem conversar. Só quando deixaste de me doer é que entendi verdadeiramente que já estava destinado a ser desta forma e não daquela, a ser assim e não assadose for a colocar as minhas mãos na consciência vejo agora que fui demasiado apressada punitiva inquieta de livros nas mãos e braços frágeis, sem tu saberes, incapaz de ver o caminho lucidamente e sem parar no sinal vermelho porque não quis abrandar o sufoco tão bom que sentia quando estava contigo.
E enfim que dei por encerrada a nossa história mal contada, mal acabada, aldrabada, soube eu mais tarde. Assinei um termo de responsabilidade e carimbei o tratado com a mão dormente achando-me mero pedaço de matéria ingénua que gostava de ti. Muito. Façamos então jus aos prazerosos momentos tão bem passados - porém totalmente desprovidos de qualquer pingo de afeição da tua parte - que partilhámos no conforto do nosso lar em segredo. Descansa. Caso anseie futuramente encontrar alguém que me transborde me sufoque e me faça doer de felicidade dirigir-me-ei até ao próximo número da revista Maria. Não te rias. Juro de mão direita estendida no meu peito apunhalar a minha noção de ridículo pelas costas e deixar escrito em quatro centímetros de folha inútil numa folha de Classificados: sou a Ana. Procuro alguém como ele que oiça a mesma música que eu. Procuro alguém como ele que consiga ser meu sem artifícios. Procuro alguém como ele que não se vá embora. Não o procuro, porém, a ele. Só a alguém como ele. Um bocadinho. Com umas parecenças, vá. Poucas. Aceito.

16.01.2014

O meu corpo em cima da cama.
Alongo os músculos de braços esticados
querendo chegar à parte em que é suposto
sentir alguma coisa.
A ponta dos meus dedos,
vendo bem,
anseiam sempre em chegar
a alguma parte.
Talvez haja um lugar até agora desconhecido
onde não doa pensar, existir, ser.
Talvez haja um lugar sem sofrimento.
O meu corpo.
Na cama.
Esticado.
Os meus dedos
nesta busca incessante,
cansativa,
vã,
de encontrar alguma coisa.
Afastados da cabeça.
Quero afastar-me da cabeça também,
sair dela,
sair de mim,
regressar ao terceiro dia
mas não conforme as escrituras.
Quero ser outra coisa que não eu,
que não o meu corpo esticado na cama
à procura de algum lugar melhor que este.
Não podemos ser felizes todos os dias,
os meus dedos gritam-me:
não podemos ser felizes todos os dias.
Somos felizes porque já fomos infelizes.
Somos felizes porque já fomos infelizes.
Queria tanto que os meus dedos encontrassem
o lugar que procuram.
Estou realmente triste, hoje.
Só hoje, porém.
Que bom ser só hoje.

14.01.2014

Grito-te agora bem alto sem medo algum:
és uma puta.
És uma puta!
Trouxeste-me uma notícia tão triste.
Os meus olhos inchados.
És uma puta.
Estou longe.
Estou longe porque és uma puta.
A presença dele desde que me lembro de ser gente.
Ele humilde
Ele educado
Ele prestável
Ele feliz,
feliz.
És uma puta!
Ele feliz.
Ele a dançar conosco.
Ele a dançar com a família.
Ele feliz.
Ele no meu sofá em L
Ele a entrar-me quarto adentro
Não tens aí um kit oculeira que me emprestes?
Ele a sorrir.
Ele e aqueles olhos tão bonitos.
Ele e a sua voz serena.
A minha paixoneta por ele e que grande que foi.
Amo-te mesmo careca.
Amo-te mesmo careca.
Ela ria.
Já nem me lembrava disto...
És uma puta
Ai és uma puta tão grande.
Isto está a doer tanto.
Sinto-me sozinha agora
Sinto-me tão sozinha.
Os meus estão a sofrer
e eu não estou lá.
És uma puta
Vida, és uma puta!
És uma puta tão grande.
Vida, és uma puta.
És uma puta tão grande
e eu estou tão zangada.
Eu estou tão zangada contigo,
nem tu imaginas.
Que dor tão grande,
Que tristeza sem fim e
sem conserto.
Somos tão pouco e tão breves.
Somos tão pouco e tu
és tão puta!
Não consigo parar de chorar,
dói-me a cabeça,
estou cansada.
Estou sozinha.
És uma puta tão grande fodasse!
És uma puta tão grande...
Porque é que és uma puta tão grande?

08.01.2014

Anseio que as engulas a todas, uma a uma sem dó sem piedade sem misericórdia por alguma dor que a carne delas possa eventualmente sentir ao receber o teu corpo afundado no corpo delas, num qualquer canto perdido durante a noite porque dizem que a noite é dos poetas e das putas. Rezo para que se lambuzem com a saliva um do outro e se rasguem e se venham e se traiam na vossa própria vergonha; que sejam mero pedaço animal confinado às vossas mãos podres; que sejam doença crónica um do outro e que aliviem essa vontade incontrolável e paralisante como formigueiro nos pés. Corroam os dedos um do outro, arruínem-se emaranhados nos lençóis como nacos de carne infértil de bondade e não deixem que ninguém vos roube isso porque enfim, esse nojo meramente físico e ilusório necessário à vossa felicidade momentânea vai terminar por causa natural, portanto usem-se, sujem-se e engulam tudo o que puderem sem perder tempo com os astros ou a prosa. Que as vossas veias sujas tresandem a sexo e que o desejo vos cegue enquanto rastejam enlameados em arrependimentos e amarguras, lembrando-se dos movimentos em vai e vem que concedem com tanto empenho e desapego sentindo nas vossas testas uma gota de suor salgado a escorrer sem rumo. Reclamem o tesão o gemido o orgasmo um do outro de mãos entrelaçadas mas ainda assim sem as mãos entrelaçadas, de olhos presos no outro mas ainda assim sem os olhos presos no outro; absorvam-se até aos ossos e bebam-se, naveguem e abandonem-se e voltem enfim para as vossas vidas fatídicas sem qualquer garantia de um encontro futuro porque lá no fundo, vocês sabem, nada mais serão um ao outro do que mera fuga sem bilhete de regresso como cicatrizes inócuas porém dolorosas nessa pele arruinada, gasta e usada para fins meramente carnais. Afinal é só isso que interessa mesmo!

08.01.2014

É possível sentirmos saudades de um sítio onde ainda estamos?

29.12.13

Afirmo com certo pesar que tenho testemunhado vários casos como o seu, inspire, expire, inspire, expire, oiça-me: eu noto claramente do que sofre, claramente? decerto, talvez, nem sei, inspire, expire, a causa disto é querer o que não pode ter e só se arranhar se rasgar se perder por aquilo que, sabemos nós, nunca será seu. Inspire, expire, inspire, expire, receito-lhe um período de tempo a sufocar, aproveite esta dor que ela consegue fazer coisas maravilhosas ai isso digo-lho eu que sofro e ainda assim sou feliz com as dores que vou tendo portanto aproveite isto, ah!, aproveite por favor, inspire, expire, há pessoas que nunca sofrem e que pena tenho eu delas!, nada mais lhe posso fazer meu caro pois que isto não tem retorno ou remédio, vá afundando o seu corpo no corpo de alguém sem ser de ninguém, inspire, expire, seja sempre de alguém sem ser de ninguém pois um dia, enfim, será. Decerto que, inspire, expire, mas ainda assim... Ainda assim. Inspire, expire, cumprimentos, não me ligue que hoje é Domingo, ora, não se preocupe que isso passa,  julgo, há-de de passar se bem que, oiça, penso que sim.

23.12.13

Oh meus queridos meus queridos, cá me declaro saudosista a poucas horas do Natal enquanto me sacudo das coisas que sinto porque prometi, sem prometer, que estaria aqui para vos escrever meus queridos, meus queridos ai o vosso rosto que não vejo há tanto tempo, os Natais que passámos juntos e fomos felizes sem saber sem saber sem saber fomos felizes sem saber, ai como me desfiguro me deturpo me perco nas memórias doces que partilho, ainda, convosco. Oh meus queridos meus queridos terem morrido é uma merda terem morrido é uma merda terem morrido é uma merda terem morrido é uma merda terem morrido é uma merda eu bem me lembro de como vos soube apenas pedaço de carne fria e dura, meus queridos meus queridos chorei como uma louca no metro e ainda hoje não me lembro do caminho para casa, meus queridos meus queridos dizem que gritei. Oh meus queridos meus queridos estás a gozar? estás a gozar? estás a gozar? estás a gozar? estás a gozar? estás a gozar? estás a gozar? estás a gozar? estás a gozar? Oh meus queridos meus queridos, ainda o Eddie Mcdowd passava na televisão, amor como estás? já sei o que aconteceu...  já sei o que aconteceu...  já sei o que aconteceu... mas eu ainda não sabia. Eu não sabia eu não sabia e ainda hoje não sei. Oh meus queridos ainda hoje não sei, meus queridos meus queridos meus queridos soube-vos do último suspiro. A ponta dos meus dedos a deslizarem nos vossos braços. A última vez que vos senti quentes. Oh meus queridos já frios e imóveis para a eternidade apenas corpo desalmado - que a alma anda por aí - apenas carne gelada beijada por mim tantas vezes e agora, acredito enraivecida: apenas pó. Apenas pó. Apenas pó e porque é que vivemos sofremos sentimos se no final de tudo viramos pó? Oh meus queridos meus queridos já não vão estar cá quando for licenciada já não vão estar cá quando for mãe, quando for a Aninhas adulta quando for alguém se um dia o for ai já não vão estar cá meus queridos meus queridos, meus queridos meus queridos eu tenho tantas saudades vossas.

Eu tenho tantas saudades vossas!

Eu tenho tantas saudades vossas eu tenho tantas saudades vossas eu tenho tantas saudades vossas eu tenho tantas saudades vossas eu tenho tantas saudades vossas eu tenho tantas saudades vossas.
Eu tenho tantas saudades vossas meus queridos,
Oh meus queridos...