18-04-2014




Ana Cristina Tara por Mãos Paixão

18-04-2014















Pixies - Where Is My Mind

14-04-2014

Manifestam-se curiosas as potencialidades escondidas por detrás da primeira porta que vês ao entrares em casa após arruinares meio tecido pulmonar nas cem escadas, número certo, que te trazem a um quarto andar já cansado e com histórias de outros por contar, aquela porta que foi só nossa durante as tantas horas da nossa existência estulta imbecil inepta que nada traz senão estes nacos de tempo onde nos é permitido ser, verdadeiramente, felizes. A porta que testemunhou de forma serena o fôlego pouco discreto e comedido que é só nosso e que findou por breves dias enquanto eu aguardo desesperadamente o repouso futuro dos teus lábios no meu pescoço e suspiro de saudades tuas afagando o meu corpo cansado por ti contra a almofada. A primeira porta que vês neste quarto andar desgastado, a entrada que observa atentamente a forma como desejo o teu colo calmo sem hesitar na decisão de te deixar esventrares a minha carne da forma que quiseres e tornares-me tua por inteiro. Ah!, fui outrora um punhado de carne gélida e de falsas vontades momentâneas e meramente carnais de alguém que não tu, incapaz de valorizar o que faço o que digo o que sou, e eis que surges de forma incontestável na minha vida e me lavas o falso alívio que sentia ao queimar a minha auto estima de pedaços insignificantes em prol de outrem, curando-me assim o bocado em carne viva que eu não conseguia sarar há demasiado tempo. Por favor não dês um desfecho trágico à nossa história ainda no início, que eu estremeço ao ouvir o teu nome e sinto a ponta dos teus dedos a dançar no meu peito todos os segundos do meu dia, alguém me disse que era amor mas isso eu não prometo de mindinho porque preciso confessar àquela porta, agora tua, que juntos somos rasgos de felicidade doentia e inegável perante o olhar atento dos outros. As tantas horas tangentes dos teus beijos no meu ombro, das tuas mãos à volta do pedaço agora mais optimista que eu sou. Quero reviver vezes sem conta e enquanto me for possível o teu rosto na presença do meu gemido; levar as mãos à cabeça num desespero maravilhoso que anseio sentir para me tornar mulher-não-mulher acriançada que solta gargalhadas com o cabeça no teu peito. Preciso acalmar as correrias a que me sujeito no teu regaço enquanto me embalas de olhos fechados; quero partilhar contigo algo imutável fixo certo pois que tu foste o único que me leu as perguntas caladas que se atravessaram nos meus olhos e me romperam a pele num arrepio. Não arrases nem sufoques a forma como as nossas mãos se encaixam por favor, meu amor, que eu não aguentaria o confronto com o vazio da tua ausência nos meus dias após me habituar a este sentimento que cresce de forma saudável incontrolável extenuante para os nossos corpos cansados suados sedentos e sôfregos um do outro, impacientes pela próxima vez que formos peças de um puzzle só agora completo que se encaixam e se criam e se amam em movimentos de vai e vem.
Aproveitemos então esta força estranha que nos une de olhar preso um no outro, o cerrar das minhas mãos na tua carne e a presença assídua da nossa gargalhada em todos os momentos em que me encontro contigo excepto quando tenho de te deixar por uns dias e contra nossa vontade. Um abraço apertado e a despedida temporária dos teus lábios nos meus, viro costas de ombros descaídos e peito estalado da tua ausência que embora recente já me queima por dentro enquanto te reparo embevecido a olhar para mim e tenho a certeza que eu, Ana Cristina, mas não me chames Cristina, estou inegavelmente e completamente apaixonada por ti.
"A questa domanda, da ragazzi, i miei amici davano sempre la stessa risposta: "La fessa". Io, invece, rispondevo: "L’odore delle case dei vecchi". La domanda era: "Che cosa ti piace di più veramente nella vita?" Ero destinato alla sensibilità. Ero destinato a diventare uno scrittore. Ero destinato a diventare Jep Gambardella."

La Grande Bellezza

Arvo Part - My heart's in the Highlands

12.03.2014

Eu nasci. Eu nasci e não foi naquele instante em que fui parida e me cuspiram para ter lugar neste mundo de loucos rasgando as entranhas da minha mãe. Eu nasci. Nasci? Sim, naquele momento solene majestoso e ultimamente raro em que estive verdadeiramente em mim. Nasci. As pontas dos meus dedos quentes, os olhos sem pesar, os cabelos tipicamente reduzidos a um aglomerado confuso preso por um elástico cansado. Eu nasci. Naquele momento em que me ouvi. Nasci quando fiquei quieta sossegada sozinha e um pouco aborrecida até. Nasci porque não senti nada. Não senti nada. Não senti deslumbramento. Não senti êxtase. Não senti azáfama ao falar. Não corri ao olhar para o relógio. Não senti música barulhenta a vibrar-me nos pés. Não senti prazer. Nada. Não senti nada. Não senti nada e nasci. Nasci porque parei. Nasci porque estou sóbria calma tranquila sossegada plácida só. Nasci porque estou só. Nasci e afogo-me assim neste limbo maravilhoso entre a minha existência e o meu sossego eterno, balançando os dedos na minha pele agora serena. Nasci. Não fui parida. Não fui gerada. Eu nasci! Eu nasci porra! Eu nasci e agradeço aos astros tudo o que trouxeram até mim. Todas as vezes em que fui mero pedaço rasgado de papel amarrotado. Todas as vezes em que uma mão me agarrou a testa e a outra me degolou sem piedade. Todas as feridas rasgadas abertas e infectadas na minha carne. Todas as doenças raras contagiosas impiedosas e cansativas que sofri. Todas as quedas ao andar de bicicleta. Todas as torturas e febres. Todos os embustes desesperos e tormentos. Todas as camadas de pele que me queimaram. Ainda bem que me queimaram. Ainda bem que me doeu. Todas as vezes em que fiquei imóvel de olhos cravados na parede sem saber para onde ir. Todas as dores e gritos roucos. Todas as chamas inflamadas à volta do meu pescoço. Todas as horas em que jurei que havia alguém melhor que eu; alguém mais bonito mais engraçado mais inteligente. Mais. Alguém mais que eu. 
Mas eu nasci. Eu nasci! Eu nasci porque não há ninguém mais que eu. Não há ninguém mais bonito que eu. Não há ninguém mais engraçado que eu. Não há ninguém mais inteligente que eu. Não há ninguém mais amado que eu. Não há ninguém que fale como eu. Não há ninguém que se ria como eu. Não há ninguém que dance como eu. Não há ninguém que seja tão trapalhão como eu. Não há ninguém que tenha defeitos como eu. Não há. Não há ninguém mais que eu, e é por isso que eu nasci. É por isso que fui jorrada aqui. Para não existir neste pedaço de terra batida nenhum ser semelhante a mim. Nem melhor. Nem mais. Não há ninguém mais que eu. Eu nasci. Eu nasci. Eu nasci. Não há ninguém mais que eu. Não há ninguém mais que tu. Não há ninguém mais que a vizinha do primeiro andar. Não há ninguém mais que um velho sentado num banco. Não há ninguém mais que ninguém, não há, não há. Não há ninguém mais que nós, porque nós nascemos. Estamos cá. Nós estamos cá e não há porra nenhuma mais que nós! Não há. 

Eu nasci.
Eu nasci porque não há ninguém mais que eu.

Capicua - Casa no Campo

08.03.2014

Considero o presente dia como um conjunto de horas completamente infrutuosas visto que o pico de emoção das mesmas correspondeu a ouvir o meu nome no altifalante da sala de espera do Hospital Santa Maria, depois de duas incessantes horas de espera acompanhadas por uma tosse seca aflitiva cansativa e massacrante que me faz doer tudo o que se encontra na zona peitoral da minha existência. 

07.03.2014

Tenho encontro marcado com um fim de semana de expectoração pulmonar não muito agradável que me obriga a estar na cama sem grande paciência para pessoas no geral. De qualquer forma, és uma treta e eu não sei sarar este bocado de carne viva em que me deixas.

07.03.2014














19.02.2014

Suspeito que nada do que vomite neste momento possa ter algum sentido para ti, olha que não vai ter, não vai, vês, estou a usar virgulas! estou, a, usar, virgulas, estou, estou, ah!, não quero perder os braços e as pernas e as forças em nome das regras, que há coisas que não se amarram na pele dos outros como se colam se fixam se cravam se enterram se enterram se enterram na minha. A máquina não está cheia ainda, deixa estar isso aí, entro às cinco, ah, sim, as virgulas. Um ponto final. Não gosto de parágrafos. Ninguém sabe ninguém sabe ninguém sabe, no outro dia estava a ter uma aula, um amigo meu ao lado, tu escreves mesmo pra caralho, o meu pai não gosta que escreva palavrões no site, oh achas mesmo?, desculpa pai sei que me lês, Acho. A universidade corta-te as pernas. A universidade corta-te as pernas. A universidade corta-te as pernas. A universidade corta-te as pernas. Fiquei a pensar naquilo o suficiente para o escrever aqui, que esta coisa estranha e por vezes feia de existir é só um conjunto de frases feitas e clichês e talvez este texto até tenha feito algum sentido para ti.

13.02.2014

Eventualmente poderíamos não ter ficado meramente confinados aos sorrisos envergonhados que partilhamos e que me atravessaram como flechas estilhaçando o meu peito de forma inconsolável, mas o conforto de um colo seguro é quem mais ordena e eu afundo a cabeça na almofada e lembro-me da bolha de algodão doce que criei contigo apesar de não te saber ler nem conhecer os teus tormentos sonhos ou possíveis anseios que te façam vibrar no inchaço desse orgulho ferido, restando-me desta forma a resignação perante o teu acto deliberado de forma clara e o retorno ao meu leito ameno que grita por um abraço hipotético dos teus braços contra o meu pescoço. 







Quintas feiras livres.



Tenho uma amiga que me dá prendas fofinhas só porque sim.

Terry Callier - You Goin' Miss Your Candyman

11.02.2014

Exerço novamente aquele ritual diário em direção ao setecentos e trinta e cinco de fones nos ouvidos e sem dar conta da desordem capilar que decorre de forma assustadora na minha cabeça devido a um vento chato e cansativo que me vira o guarda chuva enquanto penso para os meus botões: felizmente felizmente felizmente sou quase vinte e dois anos de erros cabeçadas enganos e quedas, actos cuidadosamente exercidos pela minha pessoa de forma estúpida e incorrecta a todos os níveis porque afinal não possuo qualquer tipo de santidade nas minhas entranhas, falho, caio, respondo mal, sou impulsiva e assumo actos sem pensar devido a esta angústia constante de querer viver a vida como deve ser, por isso confesso às minhas mãos frias e pontilhadas de pingos de chuva que irei sempre ser fiel e politicamente correcta a mim própria, ah!, que ninguém venha opinar sobre o que é suposto ser bem feito bem vivido bem aproveitado pois que toda a gente sabe viver de forma perfeita e maravilhosa atrás de umas frases feitas escarrapachadas no Facebook. Eu não me vou dar a isso, não vou não vou não vou não quero, não me venham com merdas que quem vem aqui ler-me, mesmo não me conhecendo intimamente, conhece um bocado deste caminho em desalinho que eu sou e sabe que nunca, na puta da minha vida, irei tomar alguma atitude para prejudicar alguém propositadamente. Ah, lordes, que mania esta do mundo conspirar contra vós, se eu beijo e danço e me perco é porque me apetece porque quero porque não vejo que os meus cinco minutos de pseudo loucura juvenil possam (inter)ferir com uma qualquer alma desgraçada e sem consolo que ande por aí ao abandono e quem julgar o contrário destas palavras que agora jorro não me conhece de todo. 
Sento-me de guarda chuva já fechado num qualquer banco de tecido feio e sem cor que os meus olhos vislumbrem ao entrar no autocarro, ninguém imagina a quantidade de cus e cabeças pensativas como a minha que se sentaram neste lugar. Os meus olhos imóveis cravados na chuva vomitada pelas nuvens a dançar com o vento de forma violenta mas bonita - eu acho - enquanto deduzo que nestes poucos anos de existência que fruo desde que fui parida nesta terra de loucos e putas, tenho entendido que somos todos uma alma defecada pelo universo ou um precalço sexual de outrem e mesmo assim insistimos nesta balela já gasta de que somos especiais e de que não passamos de uma existência irónica miserável oca que rasteja de canto em canto. 
Chego ao destino, saio do autocarro. Sobrevivi uma vez mais a esta viagem de quarenta minutos até casa. Que a minha vida não seja em vão e a tua também não, caríssimo. É só isso que eu quero.